Árvore-cenário

Seguindo a linha de pesquisa de linguagem que a Companhia Linhas Aéreas tem realizado nos últimos 10 anos, no espetáculo se fundem elementos de dança, teatro e circo, com ênfase na pesquisa de aéreos. As ações se desenvolvem ao redor de uma grande árvore de 5m de altura e 4 de diâmetro, feita de ferro e madeira, que foi o elemento base na criação do espetáculo.

Quem assina a cenografia é Renato Bolelli Rebouças, premiado diretor de arte do Grupo XIX de Teatro. Segundo ele, essa grande árvore que ocupa o centro do palco “representa o ciclo da vida, uma presença natural que envolve e protege o homem. A árvore tudo dá – sombra, alimento, oxigênio, casa, é um símbolo provedor. Ao mesmo tempo, construímos a imagem desse símbolo ancestral com uma base de ferro, que é símbolo da civilização, da indústria. É uma árvore estranha, quase hibridizada, feita em laboratório”.

A base da árvore é feita de objetos reutilizados – caixas, armários, bancos, ralos, pedaços de portas e rodapés. “Os objetos foram encontrados abandonados em caçambas, brechós, lojas de segunda mão e depósitos. São elementos que foram processados, industrializados e depois abandonados. Há aí também uma crítica ao consumo desenfreado. Para quê cortar tanta árvore se pouco tempo depois o objeto feito dela vai ser jogado fora?”, questiona Renato.

A árvore se transforma em cada cena. Barco, fábrica, sala de jantar, elevador, vagão de metrô e tanque de guerra são algumas das facetas que adquire. Milhares de traquitanas também vão compondo a mudança do cenário: objetos acessórios que entram e saem da árvore, como troncos de bambu que são usados como remos ou peças de engrenagens, longas faixas de tecido que ora são trouxas de roupa, ora redes de pesca, ora tendas de uma aldeia.


Renato é responsável também pelo figurino que, acompanhando a proposta do cenário, é composto por peças sobrepostas que se modificam a cada cena. “O espetáculo é um grande percurso que vai narrando histórias, e não há tempos para trocas de roupas. Por isso, optamos por peças que vão se adaptando conforme as cenas. De um bolso sai uma saia plissada, uma peça pode ser uma blusa ou uma saia, se amarrada em partes diferentes do corpo”, conta Renato. As peças são compostas de miscelânea de tecidos – malha, bordados de renda, tules – tingidos artesanalmente em tom de vinho e marrom. Durante as cenas de civilização, o figurino se complementa com alguns objetos acessórios – sapatos de salto alto, chapéus, lenços etc.